O jornalista Luís Nhachote alerta que o partido PODEMOS pode estar a aproximar-se das práticas políticas que durante anos disse combater na política moçambicana, sobretudo no que diz respeito à gestão interna, transparência e tolerância ao debate.
Segundo o analista, a crítica histórica feita por vários sectores da oposição sempre apontou para problemas como centralização de decisões, pouca transparência interna e intolerância à dissidência. Foi precisamente contra esse modelo que surgiram novas forças políticas prometendo uma ruptura não apenas de liderança, mas também de cultura política.
No entanto, para Luís Nhachote, alguns acontecimentos recentes levantam dúvidas sobre se o partido conseguirá manter essa promessa.
Debate interno transformado em polémica política
A polémica em torno do financiamento público parlamentar do partido tornou-se, segundo o jornalista, mais do que uma simples discussão financeira.
Para Nhachote, quando surgem discrepâncias entre os valores divulgados oficialmente e as percepções internas dentro da própria organização política, o momento exige clareza, explicações e prestação de contas.
No entanto, o analista considera que as reacções internas parecem seguir um caminho diferente.
“Quando surgem dúvidas legítimas dentro de uma organização política, o que se espera é abertura e esclarecimento. O que parece estar a acontecer é que questionamentos internos começam a ser tratados como indisciplina”, alerta Luís Nhachote.
Cultura política em risco de repetição
Na avaliação do jornalista, sinais como controlo da narrativa, centralização de decisões e gestão defensiva das críticas internas lembram práticas frequentemente criticadas pela oposição no passado.
Nhachote afirma que a questão não é afirmar que o PODEMOS já reproduz o mesmo modelo do partido no poder, mas sim reconhecer que alguns comportamentos podem apontar nessa direcção.
“O PODEMOS corre o risco de tornar-se, em pouco tempo, uma versão acelerada daquilo que sempre criticou”, observa.
Para o jornalista, o verdadeiro desafio de um partido que se apresenta como alternativa política não está apenas em conquistar espaço eleitoral, mas em demonstrar coerência na forma como gere o poder internamente.
Segundo Nhachote, a história política moçambicana mostra que muitos movimentos surgem com promessas de mudança, mas acabam por reproduzir as mesmas práticas que criticavam, sobretudo quando passam a lidar com recursos públicos, influência política e disputas internas.
“A credibilidade de qualquer força política mede-se no momento em que o escrutínio deixa de ser externo e passa a ser interno”, afirma.
Na perspectiva do analista, o maior risco para o PODEMOS não é apenas uma eventual perda de apoio popular, mas sim a possibilidade de normalizar rapidamente a cultura política que prometeu substituir.
Para Luís Nhachote, se a promessa de mudança foi feita com base na defesa da transparência e da democracia interna, esses princípios precisam ser aplicados também dentro das próprias estruturas partidárias.





