Durante a Oficina de Ideias da iniciativa Manifesto Cidadão, o académico António Prista apelou à criação de uma cultura de civismo e responsabilidade nas estradas, afirmando que a forma como se conduz reflecte o respeito pela lei, pela autoridade e pela comunidade.
A educação rodoviária foi apresentada como um dos pilares centrais da construção da cidadania durante a Oficina de Ideias promovida pelo movimento Manifesto Cidadão, em Maputo.
No encontro, o académico e membro do grupo Cidadãos de Maputo, António Prista, destacou que o trânsito é um espelho da sociedade e um teste à ética colectiva dos moçambicanos. “A estrada mostra quem somos como nação. A forma como conduzimos revela o nosso respeito pelas regras, pela autoridade e pelo outro”, afirmou Prista, numa intervenção que associou educação rodoviária à formação moral e cívica dos cidadãos.
Prista defendeu que a educação rodoviária deve ir além do conhecimento técnico das regras de trânsito e transformar-se num processo permanente de educação cívica, capaz de mudar comportamentos e mentalidades. “Conduzir é um acto de responsabilidade. É decidir de forma ética, mesmo quando ninguém está a ver. É, no fundo, um exercício de cidadania”, referiu o orador.
Segundo o Ministério dos Transportes e Logística, Moçambique apresenta actualmente o maior índice de acidentes de viação da África Austral, posição que o ministro João Matlombe considera “inaceitável e evitável. Só entre Agosto e Setembro tivemos cerca de 65 óbitos resultantes de acidentes. São situações inaceitáveis e que podem ser evitadas”, declarou o governante, sublinhando o excesso de velocidade, o excesso de lotação e a imprudência dos condutores como causas recorrentes.
Entre Janeiro e Agosto de 2025, registaram-se 575 mortes por acidentes de viação, um aumento de 14 % face ao mesmo período de 2024, de acordo com dados da PRM e do INATRO.
A taxa de mortalidade mantém-se em torno de 20 mortes por 100 mil habitantes, uma das mais elevadas da região. “Estes números mostram que o problema não é só técnico, mas também moral e social. Precisamos de mudar atitudes, não apenas estradas”, enfatizou Prista.
Campanha “10 Mandamentos do Condutor” mobiliza sociedade civil
Como resposta prática, os Cidadãos de Maputo criaram a campanha “10 Mandamentos do Condutor”, uma iniciativa de sensibilização nacional com mensagens simples e de grande alcance.
Entre os mandamentos destacam-se: respeitar os semáforos, não usar o telemóvel ao volante, evitar o estacionamento em segunda fila e respeitar as passadeiras de peões.
A campanha é divulgada através da TVM, Rádio Moçambique, painéis urbanos e redes sociais, e conta com a colaboração da Polícia de Trânsito e do Conselho Municipal de Maputo, numa abordagem pedagógica e não punitiva. “O maior êxito foi termos conseguido colaboração real entre o Conselho Municipal, a TVM, a RM, a Lima Vale e os voluntários. Mostrámos que é possível agir e produzir impacto quando há vontade e coordenação”, sublinhou Prista.
As primeiras medições revelaram dados preocupantes: 35,8 % dos condutores passam o sinal vermelho, 95 % não cedem passagem aos peões e apenas 43 % dos peões utilizam correctamente a passadeira.
Mesmo assim, após três semanas de campanha, metade dos condutores entrevistados já conheciam as mensagens educativas, sinal de crescente consciencialização pública.
Corrupção e impunidade agravam o problema
Apesar dos esforços da sociedade civil, a corrupção e a falta de fiscalização efectiva continuam a minar o sistema. “Não é por acaso que 92 % dos chapeiros não têm licença. É mais barato pagar ao polícia do que cumprir a lei”, denunciou Prista, sublinhando que a impunidade e o mau exemplo das autoridades corroem a confiança e o civismo.
A preocupação foi também partilhada pela Federação Moçambicana das Associações dos Transportes (Fematro), cujo presidente, Castigo Nhamane, defendeu a necessidade de combater a corrupção policial e integrar os transportadores nas comissões de fiscalização, para reforçar a transparência.
O engenheiro António Matos, igualmente participante na Oficina de Ideias, acrescentou que as más condições das vias e a deficiente sinalização agravam a sinistralidade.
Defendeu a adopção de câmaras inteligentes, radares e tacógrafos digitais para fiscalizar infracções de forma automática e transparente. “A tecnologia não substitui o ser humano, mas amplia a sua capacidade de prevenir, ver e salvar vidas”, afirmou.
O debate encerrou com uma convicção partilhada: o trânsito reflecte o comportamento colectivo da sociedade.
As mesmas atitudes que se vêem na estrada: impaciência, indiferença e falta de respeito, repetem-se no espaço público. “O país é nosso, e não podemos ficar à espera do Governo. Se não houver vontade política, façamos nós o que pudermos, com os meios que temos. A cidadania começa aí”, concluiu António Prista, sob aplausos dos participantes.
O ministro João Matlombe reiterou, entretanto, que o Governo implementará medidas de prevenção e descanso obrigatório a cada 300 quilómetros para motoristas de longo curso, reforçando o apelo à responsabilidade colectiva: “Não se trata apenas de números, mas de vidas humanas que o país está a perder de forma evitável. Precisamos de disciplina, civismo e empatia nas estradas moçambicanas.”





