Início » Notícias de Moçambique » Castel‑Branco questiona ética de activistas que recorrem ao povo para pagar despesas pessoais

Castel‑Branco questiona ética de activistas que recorrem ao povo para pagar despesas pessoais

Por Redacção Checka Moz.

O economista e académico Carlos Nuno Castel-Branco questiona a utilização de campanhas de angariação de fundos por activistas sociais e políticos para fazer face a despesas de natureza pessoal, defendendo que a mobilização de recursos junto de populações pobres e vulneráveis deve ser acompanhada por maior transparência e responsabilidade.

Num texto de opinião, Castel-Branco critica aquilo que considera ser uma tendência crescente de transformar contribuições populares destinadas a resolver problemas individuais em instrumentos de visibilidade e capital político.

“Vaquinhas” para despesas pessoais

Na sua análise, o economista chama atenção para campanhas lançadas por figuras com exposição pública para financiar despesas relacionadas com problemas pessoais ou processos de natureza legal.

“Assim que um desses activistas sociais/políticos/protagonistas das redes sociais tem um problema na sua vida pessoal e/ou de natureza legal, apela às massas pobres e vulneráveis para uma ‘vaquinha’ que os tire da crise.”

Castel-Branco questiona particularmente a ausência de informação sobre a origem dos recursos, a dimensão dos valores mobilizados e a forma como o dinheiro é posteriormente utilizado.

Para o académico, o problema torna-se mais complexo quando os montantes angariados passam a ser apresentados como uma medida de popularidade ou de apoio político.

Transparência no centro da crítica

Castel-Branco sustenta que a solidariedade individual não deve ser confundida com mobilização política nem utilizada como mecanismo de promoção pública.

Na sua perspectiva, a questão fundamental é saber quem contribui, por que razão contribui e qual é exactamente a finalidade dos recursos mobilizados.

“Então, quem paga, porque paga e para quê exactamente?”

O economista considera que a ausência de prestação de contas pode criar uma relação pouco transparente entre quem solicita os fundos e aqueles que contribuem, sobretudo quando as campanhas são dirigidas a cidadãos em situação económica vulnerável.

Solidariedade privada e propaganda política

Outro ponto levantado por Castel-Branco é a exposição pública de campanhas que, segundo ele, deveriam permanecer no âmbito da solidariedade pessoal entre familiares, amigos e apoiantes.

O académico considera que a transformação dessas contribuições em indicadores de força ou popularidade política altera a natureza do gesto solidário.

“Pior ainda, os números que conseguem mobilizar desse modo e para esses propósitos ficam factor de propaganda política.”

Na sua análise, a discussão não se limita a uma organização política ou a um grupo específico. Castel-Branco sustenta que o fenómeno atravessa diferentes sectores e ganhou novas proporções com a utilização das redes sociais para mobilizar recursos.

Questão ética ultrapassa os próprios activistas

Castel-Branco enquadra a questão num debate mais amplo sobre ética cívica e responsabilidade pública, questionando a coerência entre discursos de combate à corrupção e práticas que, na sua interpretação, podem envolver relações pouco transparentes na mobilização de recursos.

“Do ponto de vista ético, qual é a diferença entre estes manos e os mambos corruptos que eles querem substituir?”

A afirmação integra a crítica mais abrangente do economista às práticas que considera incompatíveis com uma cultura de responsabilidade pública e de prestação de contas.

Na parte final da sua reflexão, Castel-Branco defende a recuperação de princípios de solidariedade e responsabilidade que, segundo a sua avaliação, deveriam orientar a relação entre dirigentes, activistas e cidadãos.

O economista recorda uma concepção de liderança assente no princípio de que os responsáveis públicos e políticos deveriam assumir maiores sacrifícios pessoais e colocar os interesses colectivos acima dos benefícios individuais.

“Há muito trabalho a fazer, mas mesmo muito e muito sério, para recuperar e reconstruir o sentido básico de ética cívica que o nosso país já teve.”

A crítica coloca, assim, no centro do debate não apenas a legitimidade das campanhas de angariação de fundos, mas sobretudo a necessidade de transparência sobre os recursos mobilizados, a sua finalidade e a relação entre solidariedade pessoal e actividade política.

Compartilhe

WhatsApp
Facebook
Veja também
O Jornal Evidências expôs, na edição de 15 de Setembro de 2026, o debate sobre...
O Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, defendeu em Maputo uma Função Pública transparente, íntegra...
O Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, reuniu se em Maputo com a Representante Especial...
O Porto de Maputo reforçou a sua capacidade operacional com a entrada em funcionamento de...
O Porto de Maputo reforçou a sua capacidade operacional com a entrada em funcionamento de...
A Primeira-Ministra Maria Benvinda Levi propôs a criação de equipas de trabalho entre Moçambique e...