A crise interna na RENAMO entrou numa nova fase de tensão institucional com o encerramento da sede provincial do partido em Maputo por um grupo de ex-guerrilheiros que exige a saída do presidente Ossufo Momade. O movimento, liderado por antigos combatentes, representa a escalada mais acentuada de contestação desde as eleições gerais de 2024 e levanta preocupações sobre o impacto político e de governação no país.
Segundo os organizadores, a acção constitui uma forma de pressão para forçar a realização urgente de um Conselho Nacional, num contexto em que várias delegações provinciais enfrentam tentativas de ocupação.
Edgar Silva, coordenador da Comissão de Gestão criada por ex-combatentes, afirmou:
“A liderança da RENAMO desviou-se dos reais motivos pelos quais a RENAMO lutou — a defesa dos direitos humanos, democracia e liberdade de expressão.”
Falando diante da sede do partido na Matola, Silva responsabilizou Ossufo Momade pela instabilidade interna, recordando que o partido obteve apenas 6% nas eleições presidenciais de 2024, o pior resultado desde 1994.
Cerco às delegações cresce e protestos expandem-se a outras províncias
Após Maputo Cidade e Maputo Província, delegações de outras províncias, incluindo Manica, Zambézia e Inhambane registaram acções semelhantes, com encerramentos e ocupações lideradas por grupos de ex-guerrilheiros.
As operações têm contado com intervenção policial, resultando em mais de 50 detenções, segundo os organizadores.
Edgar Silva destacou:
“O mesmo movimento que está a acontecer agora na província de Nampula já ocorreu na província de Manica, na província da Zambézia e bem recentemente aconteceu na província de Inhambane. No fim, dentro de poucas semanas, teremos todo o país sob controlo.”
A crise actual tem raízes no período pós-eleitoral de 2024, marcado por forte divisão interna e crescente pressão das bases.
Segundo Edgar Silva, a ocupação da sede nacional do partido, em 24 de Novembro de 2024, tinha como objectivo abrir espaço de diálogo com Ossufo Momade.
“Fomos retirados, foram roubados os nossos bens quando estávamos na sede.”
A reivindicação central permanece: abertura de negociações e substituição do líder.
Momade enfrenta a maior contestação desde 2018
Desde que assumiu a presidência da RENAMO, em 2018, após a morte de Afonso Dhlakama, Ossufo Momade tem sido alvo de críticas internas. A sua reeleição em Maio de 2024 não reduziu as tensões, e vários sectores acusam-no de afastamento dos guerrilheiros desmobilizados, falta de diálogo e fragilidade na gestão partidária.
Edgar Silva reforçou:
“Nós viemos para retirar o poder ao senhor Ossufo. Caso queira dialogar, ainda estamos abertos; caso não, avançaremos.”
A intensificação da crise interna na RENAMO tem efeitos directos na dinâmica política nacional:
• fragiliza a oposição num momento de reformas económicas;
• reduz a capacidade de fiscalização parlamentar;
• aumenta o risco de instabilidade política caso as tensões se alastrem a mais províncias.
Especialistas alertam que crises partidárias profundas podem ter efeitos duradouros na confiança pública e no equilíbrio democrático, sobretudo quando envolvem estruturas-chave da oposição parlamentar.





