A situação das Linhas Aéreas de Moçambique vem de anos de prejuízos financeiros. A companhia aérea está em restruturação há nove meses e o Governo foi chamado, semana passada, ao Parlamento para a explicar como a companhia se encontra.
O Checka Moz sabe que a nível interno, vive-se um reforço dos mecanismos de controlo. Foi cortado o “txuna” de bilhetes, ou seja, compra de passagens áreas a crédito, uma auditoria identificou e travou um esquema de sobrefacturação que lesou a empresa em cerca de 48 milhões de meticais. Quadros seniores foram suspensos. Enquanto isso, dados operacionais recentes apontam para melhorias mensuráveis, a partir das quais se guia esta avaliação.
O que foi dito? O que mudou? E o que ainda falta resolver? O Checka Moz estreia a categoria “Explica-me”, com os principais aspectos, ponto a ponto.
Por que razão a LAM entrou em crise?
Apesar de ser maioritariamente estatal (96% do capital), a LAM enfrentou, ao longo da última década, fragilidades estruturais:
- Endividamento elevado junto de bancos e fornecedores;
- Custos operacionais muito altos, sobretudo leasing, manutenção e combustível;
- Estrutura de pessoal desajustada ao volume real de operações.
Entre 2020 e 2023, os resultados operacionais foram sempre negativos: em 2020 o prejuízo foi de 4,6 mil milhões de MT e em 2023 situou-se em 2,6 mil milhões. Cerca de 84% das receitas eram absorvidas por leasing, manutenção e combustível, e a dívida total ultrapassa 13 mil milhões de MT.
O que o Governo decidiu e porquê?
Em Fevereiro de 2025, um mês após o início do novo ciclo de governação encabeçado por Daniel Chapo, o Executivo aprovou a alienação de 91% da participação estatal, no valor de 130 milhões de USD. As acções foram alienadas para empresas do Sector Empresarial do Estado, nomeadamente a HCB, CFM, EMOSE e outros fundos públicos. A medida mantém o controlo nacional e garante uma nova orientação estratégica à empresa.
O que se pretende?
- Recapitalizar a empresa;
- Reestruturar operações;
- Adquirir aeronaves próprias;
- Reduzir a dependência do leasing.
O Governo espera, com isto, melhorar a liquidez, reorganizar rotas e implementar o Plano de Negócio 2025–2030.
O que já mudou na prática?
Apesar de a reestruturação estar numa fase inicial, há resultados operacionais concretos.
- Pontualidade subiu — embora continue abaixo de padrões internacionais
Passou de 65% em Janeiro para 76% em Outubro, devido a:
- Maior estabilidade da operação;
- Menos cancelamentos;
- Entrada de uma aeronave Q400, que reforçou a regularidade e disponibilidade dos voos.
Ainda assim, a companhia permanece abaixo dos padrões considerados bons (acima de 85%).
- Operação mais previsível e aumento das vendas
A maior consistência operacional permitiu aumento das vendas e maior receita resultante dos voos.
- Disciplina financeira reforçada — num ambiente estruturalmente caro
A LAM introduziu melhorias nos mecanismos de controlo e supervisão financeira interna.
As auditorias recentes — que, entre outros aspectos, detectaram irregularidades no valor aproximado de 48 milhões de meticais — motivaram a suspensão de quadros seniores e aceleraram a revisão dos processos internos.
Medidas adoptadas:
- Maior rigor na emissão de bilhetes;
- Fim dos voos a crédito;
- Reforço da cobrança de dívidas;
- Centralização das aquisições;
- Melhoria dos sistemas internos de auditoria e conformidade.
- Dívidas estruturais começaram a ser liquidadas
A liquidação da dívida com a IATA permitiu:
- Retomar a venda de bilhetes da LAM por outras companhias;
- Reentrar no sistema global de liquidação financeira;
- Reativar parcerias de Code Sharing;
- Recuperar credibilidade internacional.
- Reorganização interna e modernização de processos
A avaliação interna identificou excesso de pessoal. Assim:
- 80 trabalhadores estão em processo de desvinculação;
- Encerraram-se lojas com baixa utilidade;
- Terceirizaram-se alguns serviços;
- Foi introduzido um sistema ERP;
- Estão a ser revistas participações em empresas não estratégicas.
- Uso do português nos voos deve regressar progressivamente
Segundo o ministro, a predominância do inglês resulta do uso de aeronaves operadas em regime de leasing com tripulações estrangeiras. O Governo assegura que a tendência será invertida com:
- Entrada de aeronaves em dry lease;
- Tripulações maioritariamente nacionais;
- Obrigação de ter um membro da LAM por voo para apoio em português.
Apesar de persistirem desafios como dívidas elevadas, custos operacionais altos e uma frota ainda limitada, o processo de recuperação já mostra sinais concretos de melhoria. O ministro recordou que “reformar é um acto de coragem” e que as mudanças em curso seguem esse princípio. E reafirmou a confiança de que a LAM “vai renascer mais forte, mais eficiente e plenamente moçambicana”.





